JOYN GROUP

Escrito por: Gonçalo Caeiro, Administrador do Grupo JOYN

A Nova Era Profissional

Bem haja a todos. Esta é a terceira newsletter da Joyn. Estamos em junho e por esta altura já tomámos consciência de um novo contexto estrutural que será um novo normal. Gostava de partilhar a forma como vejo o futuro que se avizinha do ponto de vista profissional e também de sociedade. Será sempre perigoso afirmar que se tem certezas sobre o futuro, mas mesmo assim arriscarei fazer umas quantas previsões. Este artigo ficou mais longo do que gostaria, mas foi-me impossível reduzi-lo, pois teria de correr o risco de ficar inconsistente.

Se em dezembro alguém dissesse que gostaria de fazer uma experiência e confinar em casa cerca de 4,5 mil milhões de pessoas durante 3 meses para fazer uma experiência climática, económica ou sociológica certamente seria apelidado de louco. Ou, na melhor das hipóteses, teria como resultado um guião de um filme de ficção científica.

Mas foi precisamente o que aconteceu. Para percebermos o que o futuro nos reserva importa perceber o que aconteceu. Sem essa perceção qualquer previsão será enviezada por crenças, gostos ou contextos parciais que tenderão a sucumbir perante a força inexorável de uma sociedade global.

E o que aprendemos em 3 meses foi de tal forma impactante em todas as áreas que o seu impacto transvasa cada uma dessas áreas. Será importante como tal percorrermos cada uma delas. Depois poderemos tentar adivinhar o futuro.

O que aprendemos

A Covid-19 é Cega

O novo Coronavírus propaga-se independentemente da região, nacionalidade, raça, religião, cor política, género ou clube de futebol. É justo nesse sentido. É certo que existem grupos com mais risco. É certo que regiões, populações ou países com mais poder económico e de infraestrutura conseguem mitigar melhor os impactos. Mas pela primeira vez o potencial impacto, inclusivamente nas classes sociais mais elevadas, foi generalizado. Não interessa se é presidente de um grupo económico, rei ou celebridade. Pode apanhar e pode morrer. A simples percepção de que somos iguais e que podemos sofrer exatamente da mesma forma será transformacional. Não durará para sempre, mas esta pandemia ficará para sempre nas nossas memórias. Chegará aos nossos netos.

Heróis

Houvesse dúvidas se há Heróis e esta pandemia eliminou essa dúvida. Na linha da frente estão os profissionais de Saúde. Incansáveis e com total abgenação! Imediatamente a seguir todos os profissionais da logística, segurança ou infra-estruturas essenciais. Os primeiros a garantir a nossa saúde imediata, os segundos a nossa sobrevivência.

Merecem descanso, a nossa total gratidão e recompensa. Tê-la-ão?

A Vida Acima de Tudo

Os países que mais cedo prioritizaram a vida em detrimento da economia portaram-se melhor. A arrogância de políticos que poderiam ser mais espertos do que o vírus teve efeitos trágicos em países como Itália, Espanha, Reino Unido, Estados Unidos, Brasil ou Suécia.

Países como a Nova Zelândia, Alemanha, Finlândia, Dinamarca, Taiwan, Noruega, Eslováquia, Grécia ou Bolívia portaram-se francamente melhor. Em comum têm o facto de serem liderados por mulheres. Fazendo a percentagem dos países com Primeiros Ministros (as) homens vs. mulheres, os países liderados por mulheres comportaram-se muito melhor.

Compreendendo que a economia sempre se recuperou mas que a vida não se ressuscita, cedo entraram em confinamento. O ditado português “importante é ter saúde” nunca foi tão verdade. Por cá, ficámos a meio caminho. Estamos no meio da fotografia, mas pior do que os países liderados por mulheres.

O Homem Impacta o Clima

Imediatamente após o confinamento na China, ficou claro que os gráficos da poluição mostravam reduções drásticas na poluição atmosférica e emissões de CO2. Na Índia, pela primeira vez em décadas, cidades apresentaram sinais de poluição abaixo dos limites máximos aceitáveis. Em Portugal, em Lisboa e no Porto, o céu apresentou-se mais limpo e azul. Mas também do ponto de vista sonoro: as reduções drásticas fizeram-se notar nos pássaros que apareceram livremente, ou nas baleias que passaram a circular pelas antigas rotas.

Mas os níveis de CO2 continuam a subir. Estão já acima de 416 ppm. Neste nível corresponde já ao nível de CO2 que há décadas se podia encontrar dentro de uma habitação. Há apenas uns séculos estávamos baixo dos 250 ppm.

Dependência do Mundo da China

Ficámos a saber que estamos (estávamos) totalmente dependentes da China. A Europa e os Estados Unidos há muito que desistiriam da sua capacidade industrial. Mas tornou-se evidente os riscos geopolíticos de não conseguir produzir ventiladores e máscaras. Mas o que dizer de sistemas de telecomunicações, chips, painéis solares ou um bilião de produtos que todos os dias usamos?

Dependência da China do Mundo

Mas mais recentemente a China também descobriu que com o planeta em recessão as suas fábricas recentemente reabriram apenas para descobrir o próximo email de cancelamento de encomendas. Não só porque o mundo está em recessão, mas porque o mundo quer depender menos da China.

O Mito do Remoto Caiu

O mito do remoto caiu. E quando falo do remoto, não tem a haver apenas com o trabalho remoto. Estou a referir-me ao remoto. Estamos a falar do Trabalho Remoto, da Escola em e-Learning, das Compras Online, da TeleMedicina.

Este será talvez um dos mais impactantes e duradouros efeitos na nossa sociedade. Demasiados macro e micro lobbies foram destruídos. Mostrou-se que uma sociedade pode aumentar drasticamente o nível de produção em sistema remoto e que a resistência apenas vem de um conjunto de grupos a tentar manter o status quo ou dos gestores que gostam de fazer microgestão.

A Velhinha Pirâmide de Maslow mantém-se

A preocupação residiu na Distribuição Alimentar, Energia e Saúde. Deixámos para trás o Turismo, Restaurantes e Espetáculos. Até a família, no nível dois e três da Pirâmide foram relegadas em detrimento do primeiro e segundo níveis.

A Tecnologia resolve

A tecnologia sempre resolveu, desde a primeira ferramenta em pedra. Desde os sistemas logísticos da Amazon, aos supercomputadores a procurar a vacina para o novo Coronavírus, até videocalls em Zoom. Nunca nos adaptámos tão rapidamente e tão bem a um evento que pela primeira vez foi absolutamente global e síncrono no globo.

E vai continuar a resolver, cada vez mais rápido.

A Europa teve de ser uma Europa

Após décadas de existência de duas Europas, a Norte e a Sul, a Rica e Pobre, desta vez (e ia quase não sendo) há uma Europa. A mutualização da dívida (mas sendo proibido referir o termo “mutualização” no Norte) será uma realidade.

Mas não é apenas a questão da mutualização da dívida. É toda uma questão que vai muito para além e que terá impacto na indústria, serviços, segurança e infraestruturas.

O que vem a seguir

As mudanças que virão a seguir serão uma mixórdia de temáticas. Todas juntas e todas interrelaccionadas. Por estarmos todos interligados e estarmos todos relacionados. Irei concretizar agora mais a visão que nos causa impacto imediato, em Portugal e na Europa, do ponto de vista da Joyn.

Recuperação Económica será Lenta e Assimétrica

Começo por este ponto. Há boas e más notícias.

As más primeiro.

Acredito que a economia ainda irá piorar. Tivemos balões de oxigénio que irão acabar. Uma segunda fase de problemas para as empresas irá acontecer dentro de 3 meses a nível global, quando percebermos que o Turismo não será o mesmo, que os Espetáculos não voltarão a ser o que eram, que as Famílias estão a gastar menos com medo da incerteza futura. Não haverá mais transferências de jogadores de futebol a 500 milhões.

E será também assimétrica. O Turismo continuará a sofrer. As Companhias Aéreas, Rent-a-Car, Fabricantes de Automóveis e Aviões.

O imobiliário sofrerá um impacto avassalador. Na minha opinião já existia uma bolha, mas agora simplesmente a liquidez (volume de transações) irá cair a pique. Quem comprou apenas para especulação vai ter um problema. E com eles os Bancos que financiavam a bolha.

Agora as boas.

Tudo o que se relaciona com Tecnologia vai registar um aumento. A Tecnologia não apanha Covid-19 (apanha outros vírus, mas não os biológicos). Sistemas de Transformação Digital, Comunicações, Robotização, Inteligência Artificial, Machine Learning, Desmaterialização, Energia, Farmacêuticas ou Telemedicina irão sofrer um aumento significativo. Não só porque a nova estrutura de trabalho, sociedade e logística assim o exigirá mas porque permitirão reduzir custos operacionais.

Migração Acelerada para Neutralidade Carbónica

A migração para a neutralidade carbónica tem de ser vista num contexto geopolítico e de longo prazo.

Vai permitir maior independência energética da Rússia, Noruega, Iraque, Cazaquistão e Arábia Saudita. A migração para o solar vai conseguir relançar a economia e desbloquear novas oportunidades na indústria automóvel e de mobilidade. Irão aparecer microcarros, elemento tão menosprezado pelos millennials mas onde já se nota uma reversão desta tendência de zero propriedade.

A par da sustentabilidade, uma pressão maior no código da construção civil, obrigando a edifícios mais inteligentes e interligados.

Trabalho Remoto será Norma

O mito da microgestão, necessidade de estar fisicamente no local, inevitibilidade de comutação diária casa-trabalho ou impossibilidade de coordenação de equipas à distância. Tudo isso caiu por terra.

A nova normalidade será híbrida. As empresas reduzirão espaços para reduzir os custos com rendas. Mas não reduzirão totalmente. A inovação faz-se através da partilha.

Se no curto prazo é possível, mesmo para nós, trabalhar 100% em remoto, é na interação humana que a inovação se desenvolve.

Teremos, pois, um misto entre trabalho remoto e presença física. E a gestão tenderá a ser fortemente flexível. Vai haver uma aceleração deste mix o que vai acelerar a divergência entre empresas flexíveis e as inflexíveis. As últimas tenderão a desaparecer tal como a crise de 2007-2011 fez desaparecer grande parte das empresas antiquadas.

Maior Industrialização, Maior Protecionismo

A Europa irá forçar a uma maior industrialização interna de forma a ser mais autónoma em relação à China mas também aos EUA. Haverá um discurso duplo e atuação dupla; por um lado a defender um comércio global, por outro lado com a preocupação de garantir autosuficência e produção local e independente.

Os impactos no imobiliário, restauração e lazer serão mais duradouros do que se poderá pensar. Os investimentos em unidades hoteleiras demoram anos a ser recuperados. Em alturas de incerteza, haverá alocações de capital em indústrias mais “certas”.

Prevejo ainda com a situação próxima de seca na Europa que toda uma indústria de Água que apareça.

A Joyn e o Futuro

Comecemos pelo imediato. Criámos as condições para que possamos voltar em segurança. No entanto, cada empresa, unidade e equipa decidirão o que é melhor e desejável. Em vários casos essa opção está no próprio colaborador: se prefere trabalhar de casa ou ir ao escritório.

Estamos a “abrir” a nova sede da Joyn, ainda em remodelações. Quem quiser voltar é bem-vindo, mas se ficarem em casa também nos é favorável termos menos pessoas no edifício.

Confiamos em todos vocês e é precisamente pela nossa estrutura que agora podemos dizer que tivemos um impacto menor do que o esperado e que algumas áreas até viram o seu negócio crescer fortemente.

Estamos agora a trabalhar para nos posicionarmos para o futuro. Os problemas inerentes em geografias de elevado custo como sejam os EUA e Norte da Europa, com cerca de 60 milhões de desempregados agregados e empresas procurando reduzir custos, podem oferecer boas oportunidades para nós entrarmos no mercado através de equipas remotas da Growin e Theros e de produtos da DocDigitizer, Infosistema e Uniksystem.

Estamos também atentos à criação de unidades locais nesses países. A libertação de talento nessas geografias facilita a nossa aquisição de talento. Permite-nos crescer mais e mais rápido e daremos notícias nos próximos meses. Como digo, estamos numa maratona e as oportunidades não desaparecerão em semanas, mas agora também é o momento de nos posicionarmos.

Iremos continuar o trabalho que iniciámos há 3 anos e que nos permitiu trabalhar remotamente de forma transparente. A delegação e responsabilização por resultados, desmaterialização de processos e documentação, digitalização de assinaturas – tudo isso contribui para uma operação tranquila. Temos ainda trabalho para fazer em e-learning e formação de competências, sistemas de partilha e controlo de gestão.

Queria ainda dar uma nota final sobre a nossa solidez financeira do grupo Joyn. A Joyn e as suas empresas estão no máximo da sua solidez financeira e operacional. Estamos convenientemente financiados e aprovisionados, permitindo encarar o futuro essencialmente como uma oportunidade. Isto será fulcral ao orientarmos as nossas energias para continuarmos a ajudar a criar um mundo potenciado por tecnologia, e a criar real impacto de bem-estar, social e económico.

Iremos ao longo deste ano comunicar em detalhe as várias iniciativas e áreas onde vamos continuar a apostar.

Entretanto, mantenhamos o foco e continuemos a manter-nos seguros.